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quarta-feira, setembro 11, 2019

Decisão definitiva

SAD do Benfica não vai a julgamento. E a decisão é definitiva. Queiram ou não queiram o Benfica tem saído ilibado de tudo o quanto o tentam acusar. Os ataques têm sido constantes, e porquê? Porque o Benfica tem ganho. Quando eram outros a ganhar, fosse como fosse, estava tudo bem. Tal e qual como João Gobern disse num Trio d'Ataque em 2017
http://obelovoardaaguia.blogspot.com/2017/06/


domingo, abril 28, 2013

"Clube das virgens" - João Gobern no seu melhor


Clube das virgens

Este foi o fundo escolhido por João Gobern no programa "Trio de Ataque". Muito bem escolhido por este grande benfiquista que está ali a ser atacado por dois comentadores unidos e um jornalista tão profissional que não é capaz de mudar o tema para a discussão desta jornada. Este programa parece uma repetição da semana passada, só se fala de Capela e Benfica-Sporting. Não vale a pena falar desta jornada, o sr. Xistra esteve tão bem e o porto ganhou tão limpinho que não se pode borrar a pintura. Coitados, deixá-los no seu papel de lobo com pele de cordeiro.

Amanhã vamos lutar contra tudo e contra todos!
Carrega Benfica!

quinta-feira, dezembro 09, 2010

João Gobern: "Esforços e reforços"

Seria útil que Jorge Jesus tivesse utilizado os vinte minutos em que, ontem, o Benfica esteve matematicamente afastado da continuidade nas competições europeias para repensar as suas intervenções públicas. É certo que fazer confluir para um só homem as culpas de uma exibição desastrada e abúlica, tão arrastada como se do resultado não dependesse o (relativo) equilíbrio financeiro e a salvaguarda da última fatia do prestígio amealhado na época passada, assume foros de injustiça – afinal, o treinador não pode entrar em campo para empurrar os jogadores… Do mesmo modo, é verdade que, nas declarações do técnico de um grande clube, há que contar sempre com uma percentagem reservada à motivação do plantel e ao empolgamento dos adeptos. Mas o grave, neste caso, está no abismo que emerge entre o que se diz e o que se vê.

Sejamos honestos: com exceção de uma hora frente ao Lyon, na partida da Luz, a participação do Benfica na Liga dos Campeões fica abaixo do medíocre, tanto pelas exibições como pelos resultados. O que fica para a história são quatro derrotas em seis jogos e a desvantagem no marcador face a todos os oponentes: 1-4 frente ao Schalke 04, 4-5 na soma com o Lyon, até 2-3 nos desfechos com o Hapoel. Mais: os benfiquistas que suspiraram de alívio com o golo de Lacazette não vão esquecer que a sua equipa entrou a depender de si própria e acabou a rezar pelo milagre em Lyon. Antes de mais esta pintura esborratada, já Jorge Jesus tinha defendido que o Benfica poderia chegar mais longe na Liga Europa do que fez na época passada. Só para avivar a memória: o campeão nacional despediu-se nos quartos-de-final. O que levanta a questão – a jogar assim, sem pressão, alta ou baixa, sem velocidade, alta ou baixa, sem eficácia, ao invés da última época, alguém acredita na verosimilhança deste objetivo?

Épreciso mudar muita coisa, a começar pela atitude. Como é indispensável desvendar o grande mistério da temporada benfiquista: se os jogadores são praticamente os mesmos (e Jesus teve tempo e dinheiro para substituir à altura Di María e Ramires), de onde vêm tantas diferenças? Vem aí o mercado de Janeiro e a tentação pelos reforços é grande, mesmo tendo consciência de que é muito mais difícil fazer bons negócios no Inverno. Talvez por isso, se troque o reforço pelo esforço: sem a resolução das maleitas internas, os que vierem podem alinhar no lado dos problemas e não das soluções. Acima de tudo, o Benfica precisa jogar mais e melhor. Caso contrário, ficará a falar sozinho, quando protestar contra os Elmanos desta vida. Claro que a reclamação é justa, nas primeiro é necessário fazer pela vida dentro de campo. Chama-se autoridade moral, se não me engano.

João Gobern in Record online

quarta-feira, dezembro 01, 2010

João Gobern: "15 segundos"

Para se ser agreste em televisão, sem ficar mal no “boneco”, é preciso experiência, talento, sentido de oportunidade e elegância. Recordo, por exemplar, uma “entrevista” de Joaquim Letria a uma cadeira vazia – aquela em que deveria estar sentado um ministro que, depois de confirmar a presença, “desapareceu” para parte incerta. Lembro, por categórico, o momento em que um líder (já extinto) da Direita portuguesa insinuou perante José Alberto Carvalho que este se limitava a reproduzir perguntas “sopradas” da régie. O jornalista retirou o auricular do ouvido e, daí em diante, deixou o seu interlocutor suar (literalmente) as estopinhas.

No domingo, após o jogo entre Beira-Mar e o Benfica, um “repórter” da TVI – cujo nome propositadamente já esqueci – apresentou a sua candidatura aos famigerados 15 minutos de fama referidos por Andy Warhol. Fê-lo de forma atabalhoada: na “flash interview” com Jorge Jesus, saltou das ocorrências da partida para um alegado “ambiente de balneário” e para um “momento de contestação” ao técnico. Jesus ainda respondeu à primeira. À segunda, soltou o já famoso “então tchau”. Ora tivesse a coisa ficado por aí e passava. Nada disso: balanceado nos seus 15… segundos, o “repórter” decidiu lançar um ataque à Benfica TV (e à opção de o clube antecipar no canal os jogos da Liga) e acabar a proclamar que “ali” é ele quem decide as perguntas. Acontece que não é – e a ignorância da lei não aproveita ao prevaricador. Segundo os regulamentos das “flash interviews” – inventadas para “cobrir” mais uma janela publicitária e para colecionar um “sound byte”, de quando em vez –, as perguntas devem cingir-se ao recém-terminado jogo. Não foi o caso. E não vale a pena a TVI ou algum dos seus responsáveis invocar a defesa superior do jornalismo; quando se tornou compradora das transmissões sabia o que dizia o regulamento. Tal como sabe Sousa Martins que, na noite seguinte, no programa “Prolongamento”, tentou argumentar que ninguém o cumpria. Mau serviço, rapazes. Acredito que seja um caso de ignorância, mais do que de má vontade. Mas foi para situações como estas que se criaram os pedidos de desculpas.

Pior, muito pior, foi o comunicado publicado em nome do FC Porto. O problema não lhe dizia, de todo em todo, respeito. Só uma obsessão guerrilheira justifica o “parecer”, por acaso subscrito por quem também é campeão no “blackout”. Tenho, de resto, a ideia de um diretor de comunicação a insultar e ameaçar um antigo colega da RTP por causa de uma questão mais incómoda – deve ser engano meu… A alusão aos “filmes de gangsters”, vinda de quem vem, evoca diretamente outro género cinematográfico: a comédia. Se tivesse graça, não seria um drama.
João Gobern in Record

quinta-feira, novembro 18, 2010

João Gobern: "O melhor exemplo"

Terá perdido, em múltiplas ocasiões, oportunidades de se insinuar junto dos “tribunais populares”, permeáveis ao gesto largo e espalhafatoso, por ser discreto e por ter ganho a calma que os longos anos de futebol e de “casa” lhe valem. Dir-se-á, até, que nos anos mais chegados, desvalorizando a ansiedade pelo golo a favor do jogo em prol da equipa, também se tinha tornado um atleta discreto. Tal não impediu que, em ocasiões distintas e pela voz de comando de sucessivos treinadores, tenha sido chamado a múltiplas missões e a todas elas se tenha entregue com igual fervor e aplicação.
Recordo os momentos em que foi desviado da frente de ataque para a posição de playmaker - com êxito assinalável, tendo em conta a sua técnica e a visão de jogo. Lembro os momentos de sufoco para a sua equipa, em que foi sempre capaz de dar o exemplo e, sem esquecer o seu papel primordial de atacante, apareceu como primeiro defensor. Evoco, em nome da épocas mais recentes, a sua infinita disponibilidade para uma longa permanência no banco de suplentes - e até na bancada - em nome dos interesses da equipa, sem que se lhe ouvisse um queixume público, sem que reclamasse a antiguidade como um posto, antes mantendo viva e activa a autoridade natural ganha no balneário e no “grupo de trabalho”, chegando a dar o peito às balas mesmo sem entrar em campo.
Agora, sem fazer ondas nem lançar recriminações contra ninguém, anunciou a disposição de deixar o clube que o fez gente no mundo do futebol e que ele próprio ajudou a engrandecer. Tê-lo-á feito depois de uma prolongada reflexão e por ter concluído que maior do que o seu amor à camisola só há mesmo outro amor: aquele que dedica à sua actividade profissional, que é uma paixão chamada futebol. Mais uma vez, o capitão voltou a ser discreto, limitando-se a defender que ainda se sente à altura de jogar e de partilhar alegrias sobre os relvados.
Chegou a ser um mal amado na equipa, mesmo pelos que reconheciam a sua importância nos equilíbrios no clube. O facto de ser um jogador fino - nada tem a ver com défices de entrega e de alma - levou-o a receber assobios. Hoje, é aceite como símbolo, algo que herda em via directa de alguns dos maiores de sempre no clube que representa. E não é preciso ser adivinho para vaticinar que o Benfica, mesmo em fase de poder e de saúde, vai sentir a falta de um homem - e de um jogador - como Nuno Gomes. Oxalá possa regressar, mais tarde, para continuar a ser porta-bandeira e porta-voz. Apesar da época meteórica que vivemos - no futebol e não só -, das famas e carreiras feitas e desfeitas num ápice, ainda há os que provam ser uma mais-valia continuada. No futebol jogado em Portugal, não conheço melhor exemplo.
João Gobern in Record

sexta-feira, maio 14, 2010

Passo em falso

Quim é um daqueles jogadores de futebol a quem a sorte, de quando em vez, parece virar as costas. Mal amado por parte dos adeptos benfiquistas, foi vítima de experiências (todas de resultados desvantajosos para o clube) por alguns técnicos que passaram pela Luz - de Moretto a Butt, foi batendo um a um. Com Jorge Jesus, que provou não brincar em serviço e não olhar a nomes nem a "vacas sagradas", foi totalista na Liga e o guarda-redes menos batido. Não conheço melhor em Portugal, tal como não me recordo, em 2004, de haver quem igualasse Vítor Baía. Deve ser sina - Quim fica de fora da convocatória de Carlos Queiroz, como Baía foi afastado por Scolari. Depois das experiências com Rui Patrício e Hilário, o selecionador optou por eleger Beto (um suplente pouco utilizado) e Daniel Fernandes (quem?). Quim não merecia a desfeita.

De resto, a convocatória de Queiroz contradiz o princípio do mérito que anunciou à chegada - Queiroz escolheu, em múltiplos casos, por hábito ou pelo recurso ao choque, desvalorizando o momento de forma dos atletas e, vamos lá, a devida recompensa depois de uma época em pleno. Exemplos? Ruben Amorim, João Moutinho, Carlos Martins, Daniel Carriço, Nuno Assis, até o experiente Nuno Gomes. Em nome de quê, ou de quem? De Ricardo Costa, pouco utilizado no Lille, de José Castro, de uma obsessão chamada Duda. Resultado: se Deco não recuperar de uma época medíocre e apoquentada no Chelsea, a Seleção prescinde de um centro-campista criativo e dinamizador porque Moutinho, Martins e Assis já estão de férias... Com Raul Meireles longe dos melhores dias, com Miguel periclitante, com uma incógnita chamada Pepe (embora seja louvável a sua manutenção no grupo), poderá defender-se sem demagogias que Amorim não tinha lugar?

No conjunto, Queiroz desdenha de um fator que chega a ser decisivo, o da motivação - depois de uma época categórica do Benfica, consegue a proeza de só incluir um jogador dos campeões nacionais. Sinceramente, desejo que a vida lhe corra bem e que a Seleção possa confirmar a belíssima imagem deixada nos últimos três grandes torneios internacionais, embora o "casting" pareça defensivo e errante. Caso o Mundial não corra de feição, não haverá "plano quinquenal" que lhe valha, nem estabilidade que lhe evite outra saída pela porta dos fundos.

Dito isto, a partir daqui e até ao regresso da expedição africana, a Seleção de Queiroz passa a ser a minha Seleção. Incondicionalmente. As contas fazem-se no fim.

P.S. - Por falar em contas, confesso que tive pena de ver alguns regressar às "vitórias morais". Como a de Falcão - belíssimo jogador descoberto pelos olheiros do Benfica - contra Cardozo, campeão dos marcadores. Muito pode a impotência.
Por João Gobern in Record

quinta-feira, maio 06, 2010

Golfe, isqueirada e misérias

As circunstâncias que rodearam o clássico do Dragão são motivo de orgulho para todos os desportistas nacionais. Ficámos a saber da existência de mais duas secções no FC Porto: uma de golfe, com a particularidade de estar na moda uma variante que dispensa os tacos, o equipamento tradicional e até os "greens"; outra, muito mais certeira, que se dedica à isqueirada, modalidade com todos os condimentos para se tornar um fenómeno de popularidade. Claro que o isqueiro pode ser aperfeiçoado, uma vez que não serve para acender ou alumiar, mas apenas como arma de arremesso.

Percebemos que os respetivos praticantes não gostam de dar a cara, preferindo fazer lançamentos furtivos e assobiando para o lado quando pressentem a proximidade de uma câmara de televisão. Por exemplo: nas imagens da Sport TV viu-se bem o homem que fez de Jorge Jesus o seu alvo particular. Aposto que já passou a gravação para DVD, com o objetivo de a mostrar à família e aos amigos. Pena que as "implacáveis" forças de segurança não tenham tido oportunidade de ver o que o país viu. Percebeu-se, enfim, que não é uma modalidade ao alcance de todos, depois de presenciarmos o "falhanço" de Luisão, depois de alvejado à entrada do túnel. Não dá para aquilo...

Houve outras inoperâncias, dentro e fora de campo. Fora, avulta o momento da declaração categórica de um responsável policial, garantindo não ter havido pedradas ou similares ao autocarro do Benfica, desde o hotel ao estádio. Teve azar: o repórter televisivo de serviço desmentiu-o de imediato, com o argumento irrefutável: "Eu vi...". Olegário Benquerença, apesar do olho de lince que lhe permitiu oferecer por três vezes o cartão amarelo a jogadores do Benfica nos primeiros quinze minutos (dois deles absurdos, os de Di María e Fábio Coentrão, um terceiro duvidoso, o de David Luiz), não conseguiu ver dois ataques (falhados, é certo, mas bem percetíveis) de Raul Meireles a pernas adversárias nem dois penáltis (carga sobre Maxi Pereira, mão na bola em livre marcado por Di María) que seriam claríssimos, noutro estádio e noutro ambiente.

Razão teve Jesualdo Ferreira: a expulsão de Fucile é ridícula. Sobretudo por ser tardia - com igualdade de critérios, teria deixado o terreno de jogo logo aos 17 minutos. Feitas as contas, pouco importa: o FC Porto julga ter salvo a honra, o Benfica conseguiu salvar jogadores suficientes para entrar em campo no próximo domingo. E até os distantes adeptos do Sporting, apesar da oitava derrota e de somarem 42 pontos perdidos para os 45 conquistados, puderam festejar os golos do FC Porto. E talvez o do Braga, mesmo marcado em fora-de-jogo. É bom que todos descubram motivos para celebrar - sempre se evitam as depressões.


Por João Gobern in Record

quinta-feira, abril 29, 2010

A educação pela arte - João Gobern

Quis Deus e quis a vida que eu não tivesse filhos e que, assim sendo, a herança genética fosse uma conversa acabada. Resta-me - e não é pouco - dedicar uma parte do meu tempo útil a cuidar da transmissão daquilo que, sem presunção nem imodéstia, considero uma éspecie de "herança cultural".
Sabem os meus amigos e familiares com descendência assegurada que gosto de me ocupar daquilo que eles próprios podem designar como "zonas periféricas" da formação dos mais novos. Aquilo que desconhecem - e que eu também não me vejo obrigado a confessar - é que, muitas vezes, é nestas franjas que moram episódios essenciais para o crescimento dos petizes, hoje muito menos separados pela questão do género do que acontecia noutros tempos.
Por outras palavras, e consoante os apetites previamente estudados, gosto de agarrar nos "sobrinhos" e de os levar ao Jardim Zoológico ou ao Oceanário. Ao cinema, via rápida para o sonho. Ao teatro, quando já são capazes de perceber o valor do silêncio. A um espectáculo musical, a um recital, a uma ópera, aproveitando a abertura sem preconceitos que ainda os domina. A um museu, para lhes educar vista e sensibilidade. E, evidentemente, ao Estádio da Luz, preparando-os para a multidão e para a vibração, mostrando-lhes como num jogo do Benfica há coreografias e efeitos especiais (recentemente é assim que olho para as fintas de Saviola e para os arranques de Di Maria), coreografias estudadas e improvisos de génio (Aimar é um belo argumento), música de comunhão e dinâmica de grupo, além de traduções menos rudimentares do que poderia supor-se de Geometria, de Física, de Geografia (componente demográfica na ocupação dos espaçõs livres), de História (e lá estou eu para ajudar a ser cicerone).
Um bom jogo do Benfica é algo que fica gravado para sempre, dipensando todos os outros suportes além da memória emocional. Não será, assim, coincidência que quase todos os "sobrinhos", elas como eles, de recordem dessa jornada gloriosa que, sem meias palavras, incluo no domínio da educação pela arte - uma vez que, mesmo em tempos de crise de identidade, nunca faltaram artistas na Luz, iluminados mas também faróis. Por mim, lembro com mais facilidade aqueles que mereciam outro currículo, jogando como jogaram pelo Benfica: Preud'Homme e Poborsky, Simão e Miccoli, Gamarra e Enke. Acima de todos, João Vieira Pinto. São a prova de que nos corações benfiquistas contam mais o esforço, o empenhamento e o génio do que os títulos que, por várias ordens de razões (e nem todas edificantes), acabaram por não conquistar as serviço do clube que, correcções feitas, prioridades alinhadas, está a voltar ao que se espera: que contagie e empolgue, que alegre e identifique quem o segue. E, se possível, que ganhe - mas sem truques nem malfeitorias.
Por norma, os presentes - os equipamentos, os cachecóis, as bandeiras, o múltiplo merchandising - só vêm a seguir a essa iniciação, ao vivo e a cores. Porque depois da visita, guiada apenas no indispensável e com margem para toda a descoberta pessoal, elas e eles já percebem sem dificuldade o que significa ser do Benfica.
Insisto: é educação pela arte. É um daqueles casos em que a arte vai desaguar direitinha na fé. Depois do "baptismo" e das indispensáveis "confirmações", essa nunca falta.

João Gobern in Mística

sexta-feira, março 26, 2010

Haja vergonha

Por ser uma atividade pública, que mexe com muitos interesses e muitas paixões, o futebol não pode dispensar certos requisitos aos seus agentes. Exige-se, por exemplo, que meçam as palavras que escolhem e que calculem as respetivas consequências. Requer-se bom senso, mesmo pela omissão e/ou pelo silêncio.
E pede-se que não seja precisamente quem detém responsabilidades que acabe a assumir, de forma leviana, o papel de incendiário junto desse eterno combustível que são as claques e os adeptos. Pelo contrário: há momentos em que o apelo à serenidade é um serviço prestado ao desporto e à comunidade.

Por tudo isto, Salema Garção, dirigente do Sporting, já ganhou o direito a uma página negra da história do futebol nacional, ao sugerir a criação de um "ambiente extremamente difícil" para um jogador (Simão Sabrosa) e, de caminho, para o clube que atualmente representa (Atlético Madrid). É o absurdo total: depois de regressar a Portugal, vindo do Barcelona e para o Benfica, Simão jogou várias vezes em Alvalade sem direito a hostilidade especial, embora não escapasse aos apupos da ordem. Mais: as relações entre os leões e o clube espanhol não seriam más até à data, se nos lembrarmos da recente transferência de Pongolle, de Madrid para Lisboa. Agora, com o caldo entornado, bem pode Salema Garção reclamar que aquilo que disse não pretendia sugerir o ambiente de guerrilha e intifada que se viveu nas cercanias do Estádio de Alvalade. Vale pouco e não tem efeito retroativo, a justificação: é antes dos incidentes que é preciso prevê-los e evitá-los. Caso contrário, é tão válida e útil como os prognósticos no fim do jogo.

Dentro de campo, outra vergonha: a conduta quase tresloucada de Bruno Alves, um homem que ainda há oito dias fiz questão de defender nesta coluna. Em má hora: em muitos anos de futebol, raras vezes vi um jogador - e capitão de equipa - afastar-se tanto do conceito de fair play que deve imperar entre adversários. Começou pelo insulto verbal - bem visível nas imagens da TV - e depois usou todas as suas armas: as mãos, os cotovelos, os joelhos, os pitons. Ao intervalo, para evitar males maiores, impunha-se a sua substituição. Acabou impune, apesar do que fez com Kardec (a principal vítima), com Aimar (a mais evidente), com Cardozo. A partir de determinado momento, só havia duas dúvidas: por quantos ganharia o Benfica e quantas vezes Alves "pediria" a expulsão... sem a obter. No fim, Jesualdo Ferreira - que conseguiu ver "um jogo equilibrado" - descobriu uma arbitragem "sensata". Por mim, só vi uma arbitragem disciplinarmente cobarde. E assisti ao silêncio cúmplice de quem manda no FC Porto, a sancionar o golpe baixo, a violência e o destempero.
João Gobern in Record