sábado, novembro 13, 2010
RAP: Este espaço está disponível
Saudações anti-ditaturiais!
Hoje era dia de RAP
O Sábado sempre foi e será dos melhores dias para mim, é o primeiro dia em que não trabalho e sei que no dia seguinte também não e isso traz-me uma paz e ainda mais tempo para pensar no meu Benfica. E neste dia, era dia de ler as crónicas de Ricardo Araújo Pereira, ou comprando o Jornal A Bola ou através dos Blogues, e hoje não vai ser possível.
Espero que o RAP encontre rapidamente um sítio para escrever, para que o Sábado volte a ter Sol, pois acredito que ainda existe liberdade de imprensa no nosso país, não digo em todos os jornais, mas em alguns.
Um bom Sábado a todos os Benfiquistas e a quem gosta de futebol!
P.S.: Hoje só tenho uma certeza, não vou gastar dinheiro no jornal A Bola!
sábado, outubro 16, 2010
RAP: Batotas que temos como evidentes
“A Constituição americana – até hoje considerada como um dos melhores textos jurídicos jamais escritos - enumera o que os Founding Fathers chamaram de «verdades que temos como evidentes». “
Aparentemente, há juristas que lêem a Constituição americana sem o cuidado que é devido a um dos melhores textos jurídicos jamais escritos. Na verdade, não é a Constituição americana que enumera aquilo a que os Founding Fathers chamaram verdades que temos como evidentes. Essas são enumeradas na Declaração de Independência, que foi escrita uma boa década antes da Constituição. É, então, na Declaração de Independência que os chamados países fundadores dos Estados Unidos expõem as verdades que consideram evidentes: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, e que entre esses direitos se contam o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Uma das verdades que não é evidente, quer para a Constituição, quer para a Declaração de Independência, é que os cidadãos tenham o direito inalienável de não serem escutados. Como é evidente, todos os cidadãos têm o direito à privacidade - mas esse direito não é absoluto. E a magnífica lei americana permite o uso das escutas como meio de investigação, assim como a lei portuguesa. Que horror! Mas não era a PIDE que também escutava? Era. Se bem me lembro, a PIDE também prendia e, apesar disso, no regime democrático há quem continue a ir preso. A diferença é simples, mas parece que é difícil de entender: a PIDE escutava e prendia arbitrária e ilegitimamente, como é próprio das polícias políticas das ditaduras; a polícia das democracias escuta e prende justificada e legitimamente, como é próprio do Estado de direito democrático. O mais intrigante, no caso das escutas do Apito Dourado, é o facto de haver discussão quando, afinal, estamos todos de acordo. Por exemplo, estou de acordo com Miguel Sousa Tavares quando, depois de José Sócrates lhe ter dito que não devíamos conhecer o conteúdo das escutas do processo Face Oculta, respondeu: “Mas conhecemos. Eu também acho que não devíamos conhecer, mas conhecemos. E, uma vez que as conhecemos, não podemos fingir que não conhecemos. Eu, pelo menos, não posso”. (http://www.youtube.com/watch?v=RlWI8t7JY6Y&t=08m07s).
E estou de acordo com Rui Moreira, quando ontem confessou aqui a razão pela qual comentou as escutas que envolviam o nome de José Sócrates: «(...) limitei-me a não ignorar o que era público, ainda que resultasse de uma ilegalidade. Ninguém se pode alhear do que é público e das suas consequências». A única diferença é que eu tenho essa opinião relativamente a todas as escutas, e não em relação a todas menos as do Apito Dourado. Também acho que não devíamos conhecer a escuta em que Pinto da Costa combina com António Araújo oferecer fruta para dormir ao JP, mas conhecemos. E, uma vez que a conhecemos, não podemos fingir que não conhecemos.
Eu, pelo menos, não posso. Quando comento a escuta em que Pinto da Costa dá indicações a um árbitro para que vá a sua casa nas vésperas de um jogo, limito-me a não ignorar o que é público, ainda que resulte de urna ilegalidade. Até porque ninguém se pode alhear do que é público e das suas consequências. Além disso, note-se, até concordo com MST quando diz que as escutas vieram a público nesta altura por causa do Porto-Benfica. O objectivo é prejudicar o Benfica: os jogadores que tiverem conhecimento das escutas ficam a saber que, por mais que se esforcem, se o árbitro estiver trabalhado não têm hipóteses de ganhar. Desmoraliza qualquer um.
Rui Moreira desfez-se em explicações para justificar que comentar umas escutas é um acto legítimo e comentar outras é uma vileza sem nome. Agora que foi despedido, talvez Rui Moreira tenha mais tempo livre para entrar num negócio que gostaria de lhe propor: formarmos um circo. Como ele já aqui tem sugerido várias vezes, eu seria, evidentemente, o palhaço. Ele seria o contorcionista. Não são muitos os artistas que se podem gabar de ter um número tão bom como o dele. A única maneira de Rui Moreira e MST comentarem uma escuta de Pinto da Costa é o presidente do Porto ser apanhado numa conversa telefónica com José Sócrates. Mesmo assim, suponho que fizessem um comentário misto, debruçando-se apenas sobre intervenções de Sócrates: “Esta intervenção de Sócrates reforça a nossa desconfiança nele. Agora temos uma parte do telefonema que não devíamos conhecer e temos nojo de quem a comenta. Agora está Sócrates novamente a fragilizar a sua credibilidade. E agora temos mais uma parte da conversa que é indigno estarmos a ouvir”.
Umas coisas são picardias maliciosas, típicas do mundo do futebol; outra, bem diferente, são ofensas. E Villas Boas ofendeu-me gravemente numa conferência de imprensa que deu esta semana. Disse que as minhas crónicas eram as únicas que gostava de ler porque eu o fazia rir. Sinceramente, creio que não merecia o insulto. Todas as semanas faço aqui o melhor que posso para provocar Villas Boas. Já recorri a tudo: sarcasmo, ironia, escárnio, simples sacanice. E Villas Boas tem a repugnante nobreza de carácter, o asqueroso desportivismo de achar graça. Para ele, se bem percebo, isto do futebol é a coisa mais importante do mundo para todos, mas no fim acaba por ser um jogo de que nos podemos rir juntos, seja qual for o nosso clube. Simplesmente infame. Exijo que passe a ter o fair-play de um Rui Moreira, que gosta muito de piadas desde que não sejam sobre ele. Obrigado.
domingo, outubro 10, 2010
Crónica de RAP
Rui Moreira, A Bola, 13 de Agosto de 2010
Embora quase ninguém tenha dado por isso, há cerca de dois meses foi cometido um crime nestas mesmas páginas. Não é segredo para ninguém que a divulgação do conteúdo das escutas é proibida. Ora, quando usou a expressão o João pode ser o João, Rui Moreira estava, como se sabe, a citar propositadamente uma escuta em que intervém o presidente do Benfica, publicitando o seu conteúdo. Trata-se de um comportamento completamente inaceitável e extremamente pidesco. E vice-versa. Pela minha parte, devo dizer que não participo em autos de fé, e não posso continuar a colaborar passivamente num jornal que se transforma num auto de fé. Não tenho, por isso, outra alternativa senão abandonar esta crónica durante dois parágrafos.
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Creio que a minha posição ficou clara, e espero que esta atitude simbólica contribua para moralizar o debate futebolístico e o próprio mundo em geral. Lamento ter chegado a este ponto, mas o caso é mais grave do que parece: Rui Moreira é reincidente neste tipo de conduta vergonhosa. No dia 26 de Fevereiro de 2010, o jornal i colocou a várias personalidades a seguinte pergunta: De pois dos episódios recentes relacionados com as escutas e o caso Face Oculta, mantém a confiança no primeiro-ministro? A resposta de Rui Moreira foi: «O primeiro- ministro tem que ser um factor de confiança perante o exterior e agora acho que passou a ser um factor de desconfiança perante o exterior». Sei que o leitor está tão chocado como eu. Rui Moreira não faz qualquer comparação entre a Santa Inquisição e as escutas (que todos os historiadores acham parecidíssimas), não condena os bandidos que as publicaram, nem se demarca da porcaria, da canalhice e da insídia. Não só conhece as escutas corno as comenta, tendo mesmo o descaramento de tirar conclusões com base no seu conteúdo. Repugnante. Quando é que esta gente compreende que, nisto das escutas, tudo é indigno (menos o que lá é dito)?
Entretanto, parece que houve problemas no Trio d'Ataque, da RTPN. Não costumo assistir mas, ao que me disseram, um dos representantes do Porto no programa abandonou o estúdio — o que acabou por beneficiar o clube. Segundo ouvi dizer, a cadeira vazia teve, no resto do debate, uma postura mais sensata e digna do que o seu ocupante habitual costuma ter. Até nisto têm sorte, os portistas. Evidentemente satisfeitos com a nova representação, os responsáveis da SAD do Porto emitiram um comunicado no qual afirmam que o clube «não apoiará qualquer sócio ou adepto que venha a ser enquadrado como representante do clube, nem lhe prestará qualquer tipo de informação, pelo que todas as suas posições serão sempre pessoais» Na tentativa de manter a excelente cadeira como representante, o Porto decreta um blackout preventivo a um possível futuro comentador. Percebo a intenção, mas gostava que a RTPN arranjasse um substituto. Sem desprimor para os porta-vozes oficiais, seria refrescante ver um comentador do Porto cujas posições fossem, desta vez, sempre pessoais.
OS adeptos de futebol assistiram , na semana que passou, a um fenómeno meteorológico interessante. Todos conhecia mos o fogo-de-santelmo, uma luz provocada por descargas eléctricas na atmosfera, observada frequentemente pelos marinheiros. Parece mesmo fogo, mas não é. «Vi claramente visto o lume vivo», diz Camões n’Os Lusíadas. Esta semana, Portugal conheceu o penalty de Santeimo. Vi claramente visto o penalti nítido, teria dito o poeta, se tivesse escrito a epopeia do futebol português (e em hendecassílabos). De facto, na segunda- feira, o penalty era claríssimo. «São muitos dos meus jogadores a dizerem que é demasiado claro», declarou Villas-Boas. Apelou a que toda a gente metesse pressão na TVI para mostrar as imagens que, por capricho ou conspiração, se recusava a transmitir. «77:53!», bradava o director de comunicação, sem que se percebesse ao certo se estava a indicar um minuto do jogo ou um versículo da Bíblia que anunciava que o fim estava próximo para todos os que não vissem o penalty. As imagens, por manifesta má vontade, é que teimavam em não mostrar nada. Passou um dia. Deve ter havido reuniões. Que fazer? Atacar a credibilidade das imagens? Se as escutas não podem ser aceites como meio de prova, era o que faltava que as imagens pudessem sê-lo. Não, está muito visto. Não havia alternativa: era mesmo preciso fazer um mea culpa. Afinal, 24 horas depois, as buscas terminaram e o penalty não apareceu. O que era claríssimo passou a inexistente. Pois bem, devo dizer que não concordo. Na minha opinião, André Villas-Boas tinha razão na segunda-feira à noite. O lance que ocorre aos 77 minutos e 53 segundos do Guimarães - Porto é mesmo penalty. Trata se de uma jogada em que nenhum jogador adversário comete qualquer infracção às leis do jogo. Normalmente, é o que basta para ser penalty a favor do Porto. Há jurisprudência neste sentido. As regras do futebol são uma coisa, a tradição é outra. Um jogo em que o árbitro se limita a perdoar um penalty ao Porto e a protelar a expulsão do Fucile durante vários minutos continua a ser um escândalo, e não há imagens que me convençam do contrário.
No final do jogo, nem todas as declarações foram absurdas. «Vou ficar atento para saber se este árbitro vai de férias», avisou Pinto da Costa. Ora até que enfim. Não foi precisamente por falta de atenção às férias dos árbitros que certas facturas da Cosmos que foram pagas por engano? Pode ser que alguma coisa esteja a mudar.
Ricardo Araujo Pereira, 9 de Outubro in Jornal A Bola
sábado, setembro 04, 2010
RAP: Jorge Sousa, um árbitro do Porto
sábado, agosto 28, 2010
RAP: Agora sem mãos
sábado, agosto 14, 2010
RAP: A andorinha e a primavera
Quanto ao Benfica, se é possível encontrar algum aspecto positivo no meio desta horrível hecatombe que foi o facto de termos perdido um jogo, talvez seja consolador registar que, num jogo em que tudo nos corre mal e não jogámos mesmo nada, o pior que nos pode acontecer é perdermos 2 - 0 com o Porto. O Braga entrou na nova época com uma vitória clara por 3-I. À atenção do Porto: a luta pelo segundo lugar vai continuar a ser dura. Talvez não seja boa ideia voltar a emprestar jogadores ao principal rival em Janeiro. Fica a sugestão!
Ricardo Araújo Pereira, 14 de Agosto in Jornal A Bola
sábado, agosto 07, 2010
RAP voltou
O 27º Mourinho respondeu ao primeiro, que ficou com as orelhas a arder
Como benfiquista, não posso deixar de estar preocupado com o jogo de hoje. Alem de ser orientado por um quase Mourinho, o Porto conta agora com João Moutinho, que no espaço de duas semanas deixou de ser um fiteiro contumaz para, segundo Rui Moreira, passar a ser um quase-Iniesta, e o Benfica limitou-se a fazer uma pré-temporada parecida com a da época anterior, o que significa que, tal como no ano passado, estamos todos imbuídos de um entusiasmo completamente injustificado. É certo que Miguel Sousa Tavares atribuiu o favoritismo da Supertaça ao Benfica, mas, depois de ter previsto a vitória da Argentina no Mundial, MST evidenciou perceber menos de futebol do que certos polvos alemães. Não há nada que nos acalme esta angústia.
domingo, junho 13, 2010
Jorge Jesus no Porto? Nem na Playstation
[Sobre a contratação de Villas-Boas] (…) não tenho opinião formada (e quem poderá tê-la?)
Miguel Sousa Tavares
A Bola, 8 de Junho de 2010
“É uma escolha fantástica”.
Rui Moreira
Antena 1, 2 Junho de 2010
A abordagem de Pinto da Costa a Jorge Jesus não resultou. Acontece. Por uma qualquer razão difícil de explicar, o treinador do campeão nacional não se mostrou interessado em ir orientar o terceiro classificado na Liga Europa. Enfim, nem todos os contactos do presidente do Porto podem ser tão bem sucedidos como aquele telefonema que manteve com o árbitro Augusto Duarte. E, além disso, é natural que os treinadores vivos desconfiem de um presidente que falha as promessas a treinadores falecidos. Benfiquismo à parte, foi pena. Sinceramente, gostaria de ter visto a equipa técnica que Jorge Jesus iria formar no Porto. Este adjunto que Pinto da Costa acabou de contratar podia ser um excelente ajudante de Raul José, Miguel Quaresma, Mário Monteiro e Pietra. Quem sabe se, no futuro, Villas-Boas não pode ainda integrar a equipa técnica de Jorge Jesus e aí demonstrar todo o seu celebrado talento para a observação e a estatística?
Tal como sucedeu nos processos de Domingos Névoa e Fátima Felgueiras, também o processo Apito Dourado terminou sem qualquer condenação por corrupção. O empresário Manuel Godinho, detido no âmbito de processo Faca Oculta, de quem se diz erroneamente que aguarda julgamento, na verdade aguarda absolvição. Os processos têm pontos de contacto notáveis. Fátima Felgueiras foi passar uma temporada ao Brasil, talvez no mesmo avião em que viajou Carlos José Amorim Calheiros, conhecido como Carlos Calheiros para efeitos de arbitragem e como José Amorim para fins turísticos. Por outro lado, enquanto Manuel Godinho oferecia peixe, Pinto da Costa oferecia fruta. Tudo víveres que devem fazer parte de uma alimentação saudável. Quanto mais não seja por semelhante elevação de princípios, não admira que não haja tribunal que se atreva a condenar esta gente.
Esta semana trouxe boas notícias e más notícias. A boa notícia é que Rúben Amorim foi chamado à Selecção. A má notícia é que foi chamado à Selecção portuguesa. Por um daqueles enormes azares, o rapaz não pode integrar uma equipa cuja categoria e ambição estejam à sua altura, infortúnio que partilha, aliás, com Fábio Coentrão. Que se apoiem mutuamente nesta hora difícil e voltem sãos e salvos, é o que lhes desejo. Até porque a equipa portuguesa continua a jogar um futebol desorganizado, com jogadores que parecem não saber o que estão a fazer em campo. Liedson, por exemplo, está de tal forma mal integrado na equipa que quem não soubesse até diria que é estrangeiro.
Depois de André Villas-Boas (sete épocas de Mourinho), Baltemar Brito (seis épocas de Mourinho) é o segundo adjunto do Special One a ser contratado para treinar um clube português. O Belenenses, sem capacidade financeira para sete épocas de Mourinho, teve de se contentar com seis. Além de que Baltemar Brito veste pior do que Villas-Boas, e não é ruivo. Nisto do futebol, a qualidade custa dinheiro, e tanto os fatos de bom corte como a coloração capilar têm um preço elevado, até pelos pontos que rendem no final da época. Segundo consta, o barbeiro de José Mourinho está nos planos do Trofense. Ora, na qualidade de cidadão que já trocou quatro SMS com o Special One, aproveito esta oportunidade para fazer saber ao mercado que não estou disponível para orientar equipas. Mas, ao que me dizem, o corta-unhas de José Mourinho vai mesmo treinar o Arrentela.
Ricardo Araújo Pereira, A Bola, 12 Junho 2010
sábado, maio 29, 2010
‘I gotta feeling’ que a Selecção não desperta ‘feelings’
Junto a minha voz à daqueles que se indignam por o hino oficioso da Selecção não ser uma canção portuguesa. Não por patriotismo, mas por coerência com a realidade: creio que a música mais apropriada para este nosso conjunto seria um fado. Antigamente, todas as janelas do País tinham de ostentar uma bandeira portuguesa, mesmo que tivesse pagodes no lugar de castelos. Agora, ninguém vai aos chineses comprar uma bandeira nem que tenha sido bordada à mão pela padeira de Aljubarrota e tingida com sangue de D. Afonso Henriques.
A verdade é que há sacas de batatas mais entusiasmantes do que Carlos Queiroz. Mais facilmente um brasileiro nos faz sentir portugueses do que ele. E, em certa medida, devemos estar-lhe gratos por isso. Com Scolari, o povo português andaria agora entretido a bufar nas vuvuzelas até ficar com as beiças em carne viva. Estaríamos a viver tempos insuportáveis. Elefantes viriam da Índia atraídos pelo barulho, julgando ter ouvido o grito de acasalamento de fêmeas gigantes, e procurariam fazer criação com os portugueses mais volumosos que encontrassem. Com Queiroz, a população da Covilhã em peso organiza-se para lhe comunicar que gostaria de o ver com uma vuvuzela, mas a sair do orifício errado. Compreende-se: por exemplo, Scolari tentou bater num estrangeiro, o que sempre galvaniza o bom povo. A única vez que Queiroz esteve tentado a dar uns bananos, escolheu um português. Isso tem sido uma espécie de imagem de marca: como se tem visto nos jogos, esta selecção não tem agressividade nenhuma frente aos estrangeiros.
Ora até que enfim que José Mourinho tem, em Portugal, o reconhecimento que lhe é devido. Não sei se ainda se lembram mas, há uns anos, alguns dos que agora rejubilam com a façanha do treinador português e só lhe vêem virtudes estavam a ameaçá-lo de morte. Um vice-presidente do clube ao serviço do qual ele ganhou a sua primeira Liga dos Campeões foi ao seu quarto na véspera da final passar-lhe o telefone, para que ele pudesse ouvir de viva voz uma mão cheia de insultos e ameaças. Parece que, desta vez, tal não sucedeu. Parabéns a José Mourinho pela sua segunda Taça dos Campeões, e a primeira que ele teve vontade de festejar. Sentiu-se que ele prefere assim.
“Nós vamos a partir de hoje aqui solenemente dizer-lhe (…) que nós queremos este ano dedicar a vitória do campeonato a si. A si, que vai ser campeão”.
Pinto da Costa
À conversa com ma fotografia de José Maria Pedroto
7 de Janeiro de 2010
“Eu não sou prometedor de títulos nem de nada, que não uso esse tipo de conversa”.
Pinto da Costa
27 de Maio de 2010
Este ano não tem sido fácil para quem já foi treinador do Porto. José Maria Pedroto, ao contrário do prometido, não ganhou o título deste ano, e Jesualdo Ferreira já sabe que não ganha o do próximo. Na origem de ambas as desfeitas está Pinto da Costa. Diz-se que o desnorte tem a ver com a má época do Porto, mas deve reconhecer-se que não foi tão desastrosa como se tem dito. Por exemplo, é mentira que os jogadores do Porto não vão disputar a Liga dos Campeões na próxima temporada. O Rentería, em princípio, vai.
Ricardo Araújo Pereira, 29 de Maio de 2010 in Jornal A Bola
sábado, maio 22, 2010
Ergo a minha taça à festa da Taça
Os balanços de fim de época são sempre inevitavelmente injustos, e temo que todas as apreciações finais da magnífica época do Sporting tenham esquecido um jogador que merece referência, até por ser, creio, aquele que tinha o currículo mais rico do plantel, em termos de conquistas: Angulo. A contratação do jogador insere-se numa bonita tradição sportinguista que deve ser recordada. Angulo é um digno sucessor daquele que foi, para mim, o melhor futebolista de sempre do Sporting, e talvez o que mais títulos conquistou na carreira: Frank Rijkaard, que, como certamente se lembram, brilhou de leão ao peito durante cerca de três horas e meia em 1987. É possível construir um onze de sonho só com profissionais que representaram o Sporting durante menos de uma semana. Rijkaard e Angulo são titulares indiscutíveis, obviamente. Vicente Cantatore teria de ser o treinador. E Sá Pinto o director desportivo.
Rui Moreira, evidentemente melindrado por, como ele próprio diz, eu ousar fazer — imagine-se! — «copy/paste fora de contexto» das suas doutas opiniões, parece estar convencido de que me ofende quando diz que os anúncios do MEO não têm graça. Imagino que os senhores da agência de publicidade, que são quem realmente concebe e redige os anúncios, tenham passado a dormir com mais dificuldade desde que Rui Moreira resolveu presentear os leitores d' A BOLA com as suas pertinentes críticas de publicidade, mas eu não tenho interesse nem mandato para os defender. Por outro lado, devo agradecer as palavras simpáticas que dedicou à rábula em que satirizávamos o discurso repolhudo de Manuel Machado. Se me lembro do sketch, Rui? Claro que lembro. Esse fomos mesmo nós que escrevemos. E não foi difícil: limitámo-nos a fazer copy/paste fora de contexto de umas declarações meio bacocas do antigo treinador do Nacional. É um estratagema humorístico ao qual continuo a recorrer amiúde. Resulta tanto melhor quanto mais bacocas forem as declarações citadas. Este ano tenho tido muita sorte com a colheita, sabe?
sábado, maio 15, 2010
Surpresa: Benfica Campeão!
«Acontratação do Saviola é igual à do Aimar no ano passado. Se fossem mesmo bons, se estivessem na parte boa da carreira, não vinham para o Benfica. Quero descobrir novos talentos, jogadores que possam dar tudo pelo Benfica e não acabar a carreira e passar férias. (…) Com estes jogadores, o Benfica vai fazer uma grande figura no Torneio do Guadiana».
Bruno Carvalho, candidato à presidência do Benfica, 27 de Junho de 2009.
«A aposta em Saviola faz lembrar a do ano anterior em Aimar: jogadores que já tiveram nome e que por isso são pagos caro e com elevadíssimos ordenados, mas que há vários anos não passam do estatuto de suplentes de luxo em Espanha.»
Miguel Sousa Tavares, 7 de Julho de 2009.
«(…) não vejo ninguém [no plantel do Benfica], nem o Luisão, que desperte o interesse de um clube disposto a pagar dinheiro que se veja (…). Eu, pessoalmente, não quereria, para o plantel do FC Porto, um só dos que constituem o do Benfica. Um só.»
Miguel Sousa Tavares, 30 de Junho de 2009, referindo-se ao plantel do Benfica da época transacta, que incluía nomes como Di Maria, David Luiz ou Cardozo, para dar apenas três exemplos de jogadores sem qualquer valor de mercado.
«O Benfica, quando bem pressionado no meio-campo, torna-se frágil».
António Tavares-Teles, 23 de Setembro de 2009.
«Adivinho, pois, um Benfica crescentemente impaciente, para dentro e para fora, a protestar contra tudo e todos quando as coisas não lhe correrem de feição e convencido, como de costume, que lhe basta alinhar vedetas como Aimar ou Saviola ou outras tidas como tais, para que o mundo lhe caia aos pés e todos se disponham a prestar-lhe vassalagem.»
Miguel Sousa Tavares, 30 de Junho de 2009.
«[Jorge Jesus] (…) estreou-se no comando dos encarnados com um empate frente à modesta equipa do Sion. (…) Relevante não foi (…) o empate frente aos suíços, mas as declarações de Jorge Jesus, após o jogo. Disse ele que vai ser muito difícil «travar este Benfica». Porquê, é que não entendi: por que razão uma equipa que, mesmo com todas as desculpas e atenuantes, tinha acabado de ser travada pelo Sion, há-de ser muito difícil de travar… por um FC Porto, por exemplo?»
Miguel Sousa Tavares, 14 de Julho de 2009. Quem nos dera que o mundo respondesse a todas as nossas inquietações com a mesma eloquência com que se encarregou de responder a esta.
«O Benfica em grande euforia. O novo treinador está satisfeitíssimo e confiante, e garante que ninguém será, doravante, capaz de travar a sua equipa. Os adeptos rejubilam com as boas novas, os jornalistas excitam-se com as exibições e encantam-se com Jesus e com a sua prosápia. Tudo isto é habitual e vulgar. Afinal, é preciso vender jornais, há seis milhões de almas que desesperam por boas notícias e, mais não seja para sairmos da crise, não se lhes pode retirar a esperança durante os meses de verão.»
Rui Moreira, 17 de Julho de 2009.
«(…) há, no mínimo, algum exagero relativamente às conquistas encarnadas.
Uma nota para o Sporting, que tem sido muito desvalorizado mas conseguiu, para já, o seu primeiro objectivo a caminho da Liga dos Campeões. Paulo Bento tem sabido concorrer com menos argumentos e, por isso, tenho a certeza que a sua equipa estará, certamente também, na corrida ao título nacional.»
Rui Moreira, 7 de Agosto de 2009. É incrível que, com esta capacidade para analisar o fenómeno futebolístico, Rui Moreira tenha o seu espaço reduzido a um programa de televisão e a uma coluna de jornal. Para quando uma rubrica na rádio?
«(…) a equipa [do Benfica] parece acusar o esforço prematuro do princípio da época».
Rui Moreira, 18 de Dezembro de 2009.
«Durante muito tempo, achei (…) que, com túnel ou sem túnel, o Benfica merecia ganhar este campeonato, porque era a equipa que melhor jogava (…). Mas a verdade é que um campeonato não são 15, nem 20, nem 25 jornadas: são 30 e o saldo final deve-se fazer às 30. E, no último terço do campeonato, desapareceu aquele Benfica que jogava mais e melhor.»
Miguel Sousa Tavares, 11 de Maio de 2010.
«(…) para grande irritação de alguns portistas, reafirmo, uma vez mais, os elogios que tenho feito, desde o início da época, ao futebol jogado pelo Benfica.»
Miguel Sousa Tavares, 23 de Março de 2010. Ou seja, já durante o último terço do campeonato.
Arquive-se!
P.S.: Algumas estatísticas curiosas deste campeonato: Weldon termina a prova com cinco golos marcados, exactamente o mesmo número de golos obtidos pelo super-hiper-ultra-extraordinário Givanildo, embora o super-hiper-ultra-extraordinário Givanildo tenha jogado mais 1091 minutos que Weldon, ou seja, o equivalente a um pouco mais de 12 jogos.
Nas jornadas em que pôde contar com o super-hiper-ultra-extraordinário Givanildo, o Porto perdeu três jogos e empatou dois. No período em que o super-hiper-ultra-extraordinário Givanildo esteve castigado só por ter participado num espancamento, o Porto perdeu apenas um jogo e empatou três. Em resumo, o Porto com Givanildo perdeu 13 pontos; sem Givanildo perdeu apenas 9. Maldita Comissão Disciplinar da Liga!
Jorge Jesus acaba o campeonato na dupla qualidade de campeão e vice-campeão, como autor material do título do Benfica e autor moral do segundo lugar do Braga, clube no qual foi o último treinador a vencer um título, a Taça Intertoto.
Miguel Sousa Tavares, em quem as exibições da equipa de futebol do Porto têm feito despertar um profundo amor pelo ténis, resumiu muito bem o último fim-de-semana desportivo. Fez referência à boa prestação de Frederico Gil no Estoril Open e anunciou a atribuição da Bola de Prata Imaginária a Falcao — cerimónia que não teve a cobertura noticiosa que merecia: uma vez que MST persiste em chamar Radomel a um desgraçado que se chama Radamel (logo ele, que é tão sensível com os nomes próprios), pela primeira vez na história um jogador que não existe venceu um troféu de fantasia, o que coloca dificuldades filosóficas extremamente interessantes. Mas, muito provavelmente por modéstia, MST não incluiu na lista de vitórias do fim-de-semana o troféu que o Porto ganhou: a Taça Rennie. Do ponto de vista digestivo é irónico que um campeonato ganho sem recurso à indigesta mistura de café com leite, rebuçadinhos e fruta tenha, ainda assim, causado tanta azia.
sábado, maio 01, 2010
Uma errata da choradeira
A grande sorte do Benfica na jornada passada não foi o castigo do Falcao, foi a circunstância de o Braga ter ganho. Se o Benfica fosse jogar ao Porto na qualidade de campeão, os jogadores podiam ter a tentação de entrar em campo com o cabelo pintado de vermelho, o que dificultaria a percepção do sangue a jorrar das cabeças. Se os jogadores do Porto entrassem em campo com a mesma disposição com que entraram na final da Taça da Liga, as mais que prováveis lesões passariam despercebidas. Há males que vêm por bem.
NÃO me custa reconhecer que talvez me tenha precipitado quando, na semana passada, evidenciei aqui, com o auxílio de divertidas citações, a euforia injustificada de pré-época manifestada pelos fiscais da euforia injustificada de pré-época. Afirmei que o Porto estava definitivamente afastado do título, mas posso ter-me enganado. De facto, neste momento o Porto segue no terceiro lugar, mas tenho a certeza de que, se recorrer para o Conselho de Justiça (CJ) da Federação, pode ainda vencer o campeonato. É uma pena que o CJ não tenha poderes nas competições da UEFA, caso contrário acredito que teria reduzido o castigo que o Arsenal aplicou ao Porto. Em vez de 5-0, reduzia para 2-0, por exemplo. A fundamentação seria a do costume: naquele jogo, os jogadores do Porto não tinham sido agentes desportivos mas espectadores. De facto, estiveram uma boa hora e meia a ver o Arsenal jogar.
P.S.: O vigilante Rui Moreira (e uso aqui a palavra «vigilante» na dupla acepção de «pessoa atenta» e de «cidadão que participa em vigílias») resolveu assinalar o erro que cometi quando disse que o Benfica nunca tinha perdido uma final com o Porto, mesmo sabendo que, logo no dia seguinte, A BOLA publicou, a meu pedido, a frase que tinha saído truncada por lapso: «O Benfica, que tirando uma solitária vez em 1958 nunca perdeu uma final com o Porto…» Mas enfim, com o Porto no terceiro lugar, é normal que até os lapsos já corrigidos mereçam destaque.
Quanto às Supertaças, como é evidente, foram propositadamente deixadas de fora desta contabilidade. Talvez eu devesse ter sido mais claro mas, quando me referi a finais, curiosamente estava mesmo a falar de finais, que são aqueles jogos que ocorrem no fim de uma competição a eliminar, tipicamente após umas meias-finais. Não é o caso do jogo da Supertaça. Fica a nota para o futuro: as rectificações têm bastante mais credibilidade quando rectificam.