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quinta-feira, dezembro 02, 2010

Leonor Pinhão: Com Xau, lavam mais branco

No final do jogo de Aveiro, no momento daquela coisa que se convencionou chamar flash-interview, o profissional do microfone de serviço, não contente com os pormenores do jogo e com o desfecho do resultado, que foi favorável ao Benfica, entendeu levar a conversa com Jorge Jesus para o âmbito das relações entre o treinador e os jogadores e entre o treinador e o clube.

Embora o regulamento daquela coisa a que se convencionou chamar Liga de Clubes, e que é a entidade organizadora dos jogos, desautorize os profissionais do microfone de serviço de levarem as suas questões para além do âmbito do jogo a que acabaram de assistir, não é de todo invulgar, nem muito menos suspeita, a curiosidade dos jornalistas pelas circunstâncias mais gerais.

Foram tão pouco invulgares as questões do profissional do microfone a Jorge Jesus como também não foi em nada surpreendente a primeira resposta do treinador do Benfica, impacientando-se com o jornalista, remetendo-o para o tal regulamento da Liga que só permite aos jornalistas cingirem-se à matéria de facto dos 90 minutos de jogo em causa.

À segunda investida do repórter, Jorge Jesus perdeu definitivamente a paciência e com um popular e em nada acintoso «então, xau!» pôs-se a andar dali para fora. Fez muito bem o treinador do Benfica que se poupou, e nos poupou, a um diálogo menos urbano optando pelo silêncio que não ofende nem embaraça ninguém.

O assunto morreria ali se o profissional do microfone, sem o adversário por perto, não resolvesse terminar a sua exibição com uma graça a despropósito, como qualquer velho e competente jornalista lhe reprovaria, qualquer coisa do género: isto aqui não é «a Benfica TV», o que lhe era absolutamente dispensável porque só veio reforçar a justeza da retirada de Jorge Jesus perante um repórter do tipo engraçadinho e, francamente, sem maneiras. Sem maneiras de jornalista, obviamente.

Há jornalistas, sempre houve, que se queixam muito de coisas sem importância nenhuma.

Na noite de domingo, por exemplo, durante a transmissão do jogo de Aveiro os comentadores de serviço queixaram-se o tempo todo do frio que sentiam, acrescentando pormenores sobre a descida do mercúrio nos termómetros e as aflições que os rigores do Inverno lhe estavam a causar. Depois, quando o jogo acabou, como também sabemos, veio mais um jornalista da TVI, em jeito de rábula, queixar-se de que o treinador do Benfica não lhe respondia às perguntas que trazia escritas de casa.

São os ossos do ofício, sempre ouvi dizer quando fui jornalista. Se está frio, paciência, aguentem-se porque os leitores ou os telespectadores não têm nada a ver com isso. Se os entrevistados não nos respondem como gostávamos, outra vez paciência, para próxima teremos de preparar melhor o nosso trabalho. Mas sempre poupando o público que nos lê ou que nos ouve às agruras inevitáveis de qualquer profissão.

No dia seguinte, este incidente na flash-interview produziu, pelo final da tarde, uma série de pequenos acontecimentos em cadeia.

Sem que a TVI tenha denunciado ou protestado algum comportamento inconveniente ou de cariz violento perpetrado, no rescaldo do «então, xau», por algum funcionário do Benfica sobre o seu funcionário-jornalista, correu a notícia de que tal teria acontecido o que motivou o FC Porto a redigir, através do seu gabinete de comunicação, um comunicado acusando a actual gerência da Luz de um comportamento igual «aos dos filmes sobre gangsters».

Reagiu com uma rapidez que, este ano, tanto tem faltado ao nosso meio-campo, o gabinete de comunicação do Benfica com um comunicado que mais não é do que o elencar de uma série já com duas décadas de tropelias e actos de violência ou ameaças perpetradas contra treinadores, jogadores e jornalistas, a última à porta de um tribunal no Porto e que consistiu de um ensaio de atropelamento e fuga de um repórter fotográfico, documentado por imagens e sons num registo que, na altura, teve o merecido destaque informativo.

Provavelmente nunca se saberá se o jornalista que foi vítima dessa gracinha automobilística apresentou queixa na polícia. É de crer que não tenha apresentado. Como já foi referido, actualmente, tal como num passado não muito distante, há sempre profissionais da informação mais inclinados a queixarem-se do frio ou da chuva, que são os ossos do ofício, do que da pancada, que são os ossos mesmo a sério.

Entra assim para a pequena história dos energúmenos do futebol português o jornalista da TVI a quem Jorge Jesus disse «então, xau!». Não sendo certo que tenha sido molestado fisicamente - o Benfica desmente o incidente e a TVI não o confirma - é mais do que certo de que é o primeiro jornalista a ser defendido, em comunicado pelo FC Porto, o que é obra quase tão cómica quanto a bucha final do referido jornalista - a referência à Benfica TV - no seu diálogo interruptus com o treinador do Benfica.

Quanto ao comunicado do Benfica, vê-se bem que foi escrito à pressa, o que se lastima.

É de todo compreensível o facto de o FC Porto tentar fazer uma lavagem do seu passado histórico, através do seu gabinete de comunicação onde, provavelmente, até trabalham pessoas que ainda nem tinham nascido quando apareceram os primeiros jornalistas queixando-se de forte pancadaria.

Mas já não é nada compreensível que o Benfica, na urgência de uma resposta bem pensada mas muito mal medida, tenha colaborado nessa mesma lavagem apresentando uma short list, ou seja, uma lista muito resumida de nomes, de factos e de situações que, algumas, conseguiram mesmo o notável feito de ultrapassar o âmbito exclusivamente desportivo.

Foi, de facto, uma pena perder-se uma oportunidade destas.

E toda esta nervoseira apenas porque, no fim-de-semana, o Benfica conseguiu baixar de 10 para 8 não menos épicos pontos a distância a que se encontra do líder do campeonato. Se alguma vez se chegarem aos 6 pontos de diferença… ninguém sabe o que se poderá passar no país.

Em termos de comunicados, obviamente.

Até lá, então, xau.

E com Xau, lá vão lavando mais branco.

SEMPRE que não ganha um jogo, André Villas Boas faz-se expulsar do banco pelo árbitro.

Aconteceu em Guimarães e aconteceu em Alvalade. No entanto, esta semana, o treinador do FC Porto não conseguiu fazer da sua expulsão um caso cuja ressonância abafasse a semana toda em nome das injustiças a quem o seu emblema é sujeito.

Mais uma vez José Mourinho roubou-lhe o protagonismo e sentou-o no seu devido lugar.

O que vale isso de ser expulso pelo Jorge Sousa comparado com levar 5 do Barcelona em Nou Camp?

Leonor Pinhão in Jornal A Bola!

Retirado de http://benfica73.blogs.sapo.pt/

quinta-feira, julho 01, 2010

Camisolas pequenas e braçadeiras grandes

No jogo com a Espanha bastava a Carlos Queiroz ter tido a inspiração, o rasgo de génio para, aos 57 minutos da segunda parte, substituir Cristiano Ronaldo por Danny, deixando ficar em campo Hugo Locomotiva Almeida, e teríamos, hoje, garantido não a vitória, porque isso é impossível de afirmar, mas, pelo menos, a tranquilidade de espírito necessária à população em geral para recordar a passagem da selecção portuguesa pelo Mundial de 2010 sem cair naquela fúria tão a gosto e tão portuguesa de apontar culpados.
Nem sequer ninguém poderia apontar o que quer que fosse ao próprio Cristiano Ronaldo que, sem ter feito um grande Mundial, também não fez muito menos do que um Mundial razoável. No jogo com a Costa do Marfim foi o único que conseguiu estremecer o adversário num remate direito ao poste que levou Drogba a benzer-se, no jogo com a Coreia do Norte fez um golo meio maluco e, no final, foi-lhe elogiada a disposição com que se envolveu no jogo colectivo da equipa, no jogo com o Brasil não esteve pior nem melhor do que os companheiros e, finalmente, no jogo com a Espanha, e de novo na marcação de um livre, obrigou Casillas a largar uma bola que só não deu golo porque os companheiros da recarga chegaram atrasados.
E depois deste lance, aos 27 minutos da primeira parte, Ronaldo pouco mais produziu contra os espanhóis. Não fosse ele Ronaldo e a sua substituição, antes do primeiro quarto de hora da segunda parte, teria sido muito bem compreendida pela imprensa e pelos adeptos. Sendo ele Ronaldo, a sua substituição não teria provocado nenhum motim na equipa portuguesa, Carlos Queiroz teria produzido um notável exercício de justiça e de autoridade e, tivesse ele um bocadinho de sorte ao jogo, estaria agora dispensado de vir para os jornais falar sobre «camisolas pequenas demais». E, muito menos, de vir falar de braçadeiras grandes demais.

O Uruguai foi duas vezes campeão do mundo há muitos, muitos anos. E depois ofuscou-se, vá lá saber-se porquê, e nunca mais voltou a exibir-se como um candidato forte no patamar das grandes emoções. Este Uruguai de 2010 tem sido um encanto de ver jogar e ganhar. E marcar. Forlán e Suarez rêm cumprido impecavelmente as suas missões lá na frente e Cristian Rodriguez nem sequer está no Mundial. Como diz um amigo meu, muito versado em temas internacionais, ao Uruguai está a acontecer precisamente o que aconteceu ao Benfica. Ou seja, melhorou bastante desde que abdicou da cebola.

Quim voltou para o Sporting de Braga de onde saiu para vir para o Benfica. É um percurso lógico para um guarda-redes que, já não sendo um jovem, ainda não está em fim de carreira. Em Braga, Quim não vai querer desperdiçar a oportunidade de provar a Carlos Queiroz que ainda tem futuro e de provar aos adeptos do Benfica que também ele teve a sua quota-parte importante nos títulos nacionais alcançados em 2004/2005 e em 2009/2010.
Entretanto, o Benfica gastou 8,5 milhões de euros para comprar Roberto ao Atlético de Madrid. Há quem se espante com o volume financeiro do negócio. É normal. Já no ano passado aconteceu haver quem desconfiasse dos 7 milhões dados por Javi Garcia e bastaram meia dúzia de jogos do jovem espanhol para desvanecer a desconfiança geral. Sobre Roberto, os benfiquistas sabem pouco. Cresceu no Atlético de Madrid e, pelos vistos, cresceu bastante, mede 1 metro e 94 centímetros. Lesionou-se no primeiro terço da época passada, cedeu o lugar a Gea e, em Janeiro deste ano, foi emprestado ao Saragoça que lutava para não descer de divisão. Roberto terá sido decisivo nessa luta o que facilmente se confirma pesquisando nos sites dos adeptos do Saragoça que, sem êxito, lançaram a campanha Roberto quédate porque não queriam ver a ir-se embora.
As opiniões dos adeptos são sempre de levar em conta porque não são movidas por outros critérios que não sejam os da produtividade e eficácia. Ao contrário dos empresários, dos jornalistas, dos teóricos e dos treinadores, os adeptos nunca se enganam. A tristeza com que a afición do Saragoça viu partir Roberto garante, à partida, a alegria com que o vamos receber.
Ou não será assim? Porque também é verdade que ninguém viu ou ouviu os adeptos do Saragoça a chorar quando Fábio Coentrão se veio de lá embora depois de meia temporada incógnita na liga espanhola. O futebol, afinal, não é tão simples como parece.

JOSÉ EDUARDO BETTENCOURT tanto anunciou que o Sporting, nesta época, ia «deixar a pele em campo» que a equipa logo se estreou com um 10-0 frente ao Sarilhense, o adversário escolhido para abrir a pré-temporada leonina. É verdade que com o Sarilhense é difícil haver sarilhos dentro das quatro linhas, mas esse facto não invalida nenhum dos dez golos que lhes foram aplicados em campo pelos sportinguistas.
Fora de campo, o Sporting de Costinha esmera-se também em evitar sarilhos. E ninguém acredita que Hugo Viana tenha aceitado baixar o salário em 40 por cento para se juntar aos eleitos de Alvalade e também ninguém acredita que João Moutinho tenha ficado minimamente aborrecido por perder o estatuto que a braçadeira lhe conferia. Aliás, o próprio Paulo Sérgio já explicou bem a situação: «Moutinho será um dos meus capitães.»
No futebol profissional ao mais alto nível, os capitães são como os chapéus, enfim, há muitos.

Na segunda-feira, o primeiro golo da Holanda contra a Eslováquia nasceu de um passe certeiro de Sjneider para Robben, que não desperdiçou. Depois, já perto do fim do jogo, Sjneider fez o 2-0 e acabou com a discussão. Os dois holandeses que não serviram para o Real Madrid serviram, muito bem, para o Inter de Milão e para o Bayern de Munique, onde se sagraram campeões, e continuam em maré de prestar bons serviços, agora à selecção do país onde nasceram.
Sjneider deu uma entrevista curiosa, na África do Sul, desejando toda a sorte do mundo a José Mourinho, que considera o melhor treinador com quem trabalhou, e afirmando peremptoriamente que «nem morto» regressa ao Real Madrid onde, diz, lhe faltaram ao respeito.
É por estas e por outras que ainda não perdi a esperança de ter Di María, para o ano, de volta ao Benfica na condição de emprestado…

Leonor Pinhão, 1 de Julho de 2010 in Jornal A Bola

quinta-feira, abril 01, 2010

Leonor Pinhão - FC Porto exige indemnização ao FC Porto

O FC Porto, através do seu departamento jurídico, exige ser ressarcido. E exige muito bem porque, na verdade, o que se está a passar no futebol português é uma grande vergonha.
Imagine-se só que por causa de uma lei proposta pelo FC Porto e aprovada com o voto do FC Porto, em reunião magna da Liga de clubes, o mesmo FC Porto viu-se privado do concurso de Lionel Messi, perdão, do concurso de Givanildo Hulk, no espaço compreendido entre as datas de 20 de Dezembro de 2009 e 19 de Fevereiro de 2010!

No presente momento, ocorrem os preparativos para uma guerra sem precedentes no quartel do departamento jurídico do FC Porto. Lutarão uns contra os outros, fraternalmente, como nunca mais se tinha visto naquela casa desde o tempo, tão longínquo, do histórico Verão quente de 1980, quando metade da equipa de futebol, numa expressão de rebeldia contra o presidente eleito do clube, o dr. Américo de Sá, fugiu ao trabalho no Estádio das Antas para se juntar à facção de Pinto da Costa, dispensada pelo mesmo dr. Américo de Sá, vá lá saber-se porquê...

Lembrar-se-ão, certamente, os mais velhos desses tempos heróicos, dos alinhados, que treinavam nas Antas sob as ordens do austríaco Stessl, contratado pela Direcção eleita, e dos desalinhados que treinavam no Pinhal de Santa Cruz do Bispo, sob as ordens do adjunto de José Maria Pedroto, co-líder dos revoltosos. Enfim, foi um período recheado de legalidades e que culminou na inevitável queda de Américo de Sá que não era pessoa destes futebóis.

Pois, tantos anos passados, estamos praticamente na mesma, o que não deixa de ser curioso. Estamos, hoje, perante mais uma guerra fratricida no FC Porto, só que, desta feita, tudo se passa no impoluto domínio da Lei e da Ordem, o que também não deixa de ser curioso.

Não pensem, os incautos, aquilo que eles querem pôr-vos a pensar. Não, nada disso, sosseguem! Não foi o dr. Ricardo Costa, presidente daquela coisa disciplinar lá da Liga apanhado em escutas telefónicas a obedecer, atento e diligentemente, às instruções do GPS presidencial benfiquista até ao seu domicílio fiscal para receber conselhos matrimoniais benfiquistas em benefício de familiares seus, nas vésperas de qualquer decisão importante no campo desportivo.

Trata-se de assunto diferente.

Trata-se da Lei.

Os juristas do FC Porto levaram à aprovação da Liga de clubes uma Lei que visava suspender preventivamente e até à decisão do órgão competente qualquer atleta que pisasse as marcas. Que pisasse, que pontapeasse ou que esmurrasse as marcas. Ora foi precisamente o que aconteceu com Givanildo Hulk que, insatisfeito com o resultado do Benfica-FC Porto, de 20 de Dezembro, agrediu um funcionário da segurança, no túnel.

Lamentavelmente para o agressor, o seu gesto foi observado e registado pelo árbitro, pelo árbitro assistente e pela polícia, que é uma instituição muito mal vista em Portugal. Os respectivos relatórios das respectivas entidades chegaram à Comissão de Disciplina da Liga e, diligentemente, foram analisados à luz da legislação desportiva gerada e aprovada pelo grande Dragão. No fundo, é muito simples: qualquer infractor das regras mínimas da civilização fica automaticamente suspenso até à deliberação final do órgão disciplinar competente.

Clubismo à parte, parece uma justa deliberação. E há que dar os parabéns aos juristas do FC Porto por tal capacidade de previsão e punição de desacatos. Não custa nada dar mérito a quem o tem. E quando redunda numa proeza, então, nem se discute…

A proeza de manter Hulk suspenso entre 20 de Dezembro e 19 de Fevereiro, à face da Lei, cabe inteirinha ao departamento jurídico do FC Porto. Quando, finalmente, a 19 de Fevereiro, o pessoal do dr. Ricardo Costa, que são os tipos lá daquela coisa disciplinar da Liga de clubes, essa instituição infestada de benfiquistas, decidiu publicitar o castigo ao agressor já estava o caldo entornado e anarquia instalada no País.

É que nos últimos quatro anos foi um sossego e peras. O FC Porto campeão e o Sporting diligentemente, no segundo lugar, consequentemente apurado para a Liga dos Campeões. Este ano, a coisa fia mais fino… A seis jornadas do fim, segue o Benfica em primeiro lugar e o Sporting de Braga em segundo e tudo por causa do departamento jurídico do FC Porto que, graças à sua própria lei, impediu o Hulk de jogar durante dois meses.

E é por esta razão, e com toda a razão, que o FC Porto vai exigir ao FC Porto uma indemnização que o ressarça dos danos sofridos. Vamos ter um escritório de advogados com sede no Dragão a esgrimir argumentos contra um escritórios de advogados clandestinamente sediado no Pinhal de Santa Cruz do Bispo. E pode-se facilmente antecipar os presumíveis diálogos dos litigantes em casa própria:

— Mas quem é que teve a ideia desta lei da suspensão preventiva?

— Foste tu.

— Não fui nada eu. Foste tu!

— Não fui. Foi o professor Jesualdo Ferreira!

— Rua! Rua! Rua!

— Depois da porcaria de lei que inventaste quantos jogos esteve o Hulk suspenso?

— Para a Liga dos Campeões não esteve nenhum, até jogou em Londres contra o Arsenal.

— Ora bem, isso foi um jogo que não interessa nada para as nossas contas!

— Desde 19 de Fevereiro, para o campeonato esteve quatro jogos de fora, sua grande besta!

— Besta és tu! E quais foram os resultados?

— Ganhámos dois jogos, empatámos um e perdemos outro!

— Temos de ser ressarcidos! Estúpido!

— Olha, morcão, ressarce-te tu que és o culpado desta coisa toda.

— Eu? Eu não bati em ninguém!

— Mas inventaste a Lei da Suspensão Preventiva, meu grande azeiteiro!

— Mas juro-te que estava a pensar no Argel!!!

— Enxerga-te! Vou-te exigir uma indemnização, no mínimo, de 7 milhões de euros, que é o mínimo pela entrada na Champions!

— Tem mas é juízo! Em seis jornadas e a 5 pontos, nós ainda vamos apanhar o Braga e vamos à Champions!

— Isso é que era o ideal! Pagas-me a indemnização e ainda ganhamos o prémio da Champions!

— Feliz Natal!

— Feliz Natal, morcão!

— Feliz Natal, azeiteiro!

— Encontramo-nos em tribunal!

— Isso é canja!

E, olhem, ficaram logo amicíssimos. É a porcaria do capital.

PS — Um feliz Dia das Mentiras para todos!
Por Leonor Pinhão in A Bola

quinta-feira, março 25, 2010

Um árbitro na auto-estrada

"O Benfica é um justo vencedor da Taça da Liga. Jogou razoavelmente bem ao longo dos 90 minutos, o que chegou e sobrou para vencer por margem expressiva o outro finalista. Objectivamente, e para além do sabor do triunfo, o Benfica jogou pior em Faro, no domingo, do que tinha jogado em Marselha, na quinta-feira passada. Em França, a exibição do Benfica teve momentos de grande brilhantismo. Em Faro, o Benfica só soube ser brilhante entre o minuto 43 e até ao fim do intervalo. E sem bola, como é óbvio. Mas, nesse período, deu enorme festival.
O programa do adversário para o intervalo era absolutamente previsível, estando a perder por 2-0 e pressentindo difícil a tarefa da recuperação. Trata-se de um reportório velho, bolorento, enfim, tristemente senil. Naquelas circunstâncias, o que melhor conviria aos interesses políticos e religiosos do adversário já não era sequer marcar dois ou três golos no segundo tempo. Era apenas incendiar os instantes finais da primeira parte com uma cena de desacatos físicos e verbais no campo que se arrastasse em cortejo demencial até às cabinas, a escondido do público, de modo a que os tristes serventuários do papado pudessem passar o resto da vida a falar sobre a Taça do Túnel.

Não tiveram sorte nenhuma. E isso é que foi brilhante, revelando uma incrível maturidade mental por parte dos jogadores do Benfica que, ainda num passado recente, tinham caído que nem patinhos em artimanhas semelhantes, quer no túnel de Braga, com o árbitro Jorge Sousa, do Porto, quer no relvado de Olhão, com o árbitro Artur Soares Dias, também do Porto, por inusitada coincidência.

Desta feita viajou o árbitro Jorge Sousa ao Algarve e, faça-se justiça, foi o único entre os que tiveram de percorrer 600 quilómetros para baixo e 600 quilómetros para cima, que não se queixou da distância!

Também Pablo Aimar, ao minuto 43, não se queixou da agressão que sofreu ali bem junto à linha. Melhor do que isso foi o facto de, ainda pelo chão, ter sorrido complacentemente para Bruno Alves e de ter ensaiado um gesto carinhoso, fazendo uma festinha repleta de bonomia na cabeça fervente do destrambelhado capitão do FC Porto. A reacção de Bruno Alves a este monumento de contenção e de espírito desportivo protagonizado por Pablo Aimar fica para a História. Enquanto os jogadores do Benfica se afastavam inteligentemente, e sem ter ninguém por perto a quem insultar ou atingir, Bruno Alves viu-se envolvido por responsáveis do seu próprio emblema que o recolheram com grande, mas com muito grande dificuldade.

Soou o apito para o intervalo e não se sabe o que terá acontecido no túnel entre Bruno Alves e a sua própria comitiva. Mas isso é lá com eles. Quanto aos jogadores do Benfica, esperaram tranquilamente no centro do relvado que os adversários desaparecessem de vista e só então, com o caminho livre, regressaram à cabina para um curto mas muito merecido descanso.

Temos gente crescida, finalmente.

A generalidade da crítica especializada concluiu que o árbitro Jorge Sousa, do Porto, esteve bem tirando aqueles pormenorzinhos de não ter expulso Bruno Alves pelo menos três vezes e de não ter expulso Raúl Meireles por ter agredido e pisado um adversário.

Permitam-me discordar. A arbitragem de Jorge Sousa é só comparável à actuação das forças policiais na A2. Ou seja, foi incapaz de controlar, identificar e afastar os descarados autores dos desacatos.

Se temos forças da ordem que vêem energúmenos a viajar numa auto-estrada sentados nos tejadilhos de autocarros e que sentem que cumpriram a sua missão por terem parado o desfile, obrigado os passageiros a entrar nas viaturas, dando ordem para continuar a marcha sem detenções, então que responsabilidades podemos pedir a árbitros de futebol por serem incapazes de agir conforma estipula a lei?

O nosso Ruben Amorim não se compara ao Ruben Micael deles. Nem a jogar e muito menos a falar. Jogaram os dois Rubens um contra o outro, no domingo, e foi o que se viu em termos de futebol. Na conversa, também o Ruben benfiquista leva grande vantagem. Em primeiro lugar porque não fala muito, enquanto o Ruben portista praticamente ainda não se calou desde que trocou a Choupana pelo Porto, como se tivesse que pagar em débito de improbidades contra o Benfica o grande favor de ter sido contratado pelo clube rival.

No entanto, muitas coisas mudaram. Os discursos de Ruben Micael contra o Benfica não só não nos chateiam como nos tranquilizam. São a evidência de que o FC Porto já não é o que era. Quando qualquer jogador recém-chegado, e sem currículo, se dá ares de ter 20 anos de casa e de falar, com grande e indisputada autoridade, em nome de todos os que já lá estavam antes de ele ter chegado, é um sinal de impensável rasganço no tecido da hierarquia do grupo.

E é por isso mesmo que, no Benfica, se gosta de ouvir Ruben Micael a falar de túneis, onde não aprendeu nada, e a falar da mística do FC Porto que apreendeu todinha em cerca de 23 minutos, o tempo que passou entre o sair do avião na pista do aeroporto e meter-se no carro da SAD que o levou de Pedras Rubras ao Estádio do Dragão.

O nosso Ruben Amorim é de outra laia. Apresenta-se sempre com o mesmo sorriso quer seja titular ou suplente e quando é titular joga à bola como os outros, constatação que é um grande e merecido elogio. A falar, também Ruben Amorim provém de um outro estrato social e cultural. Não provoca nem calunia os adversários, antes pelo contrário.

Como todos estarão recordados, foi ele o autor do primeiro golo do Benfica contra o FC Porto, no Algarve, e, se o seu pontapé foi certeiro, já o guarda-redes Nuno Espírito Santo, num segundo de aflição, não teve mérito no lance.

No final do jogo, Ruben Amorim falou assim: «A minha sorte vem de um azar de um adversário. O futebol é assim. Se falei com o Nuno? Não, nem o vou fazer. Não deve estar feliz e importa respeitar isso.»

Ruben Amorim é um campeão.

O presidente da Câmara Municipal de Braga, que é um ícone do poder autárquico em Portugal, multiplicou-se em declarações de índole futebolística, nesta semana que antecede o Benfica-Braga. Mesquita Machado diz que o «Braga será campeão se os homens de negro cumprirem o seu dever».

Ora aqui está uma coisa que dá que pensar. A que «homens de negro» se refere Mesquita Machado? Como os árbitros já raramente equipam de negro, o edil só pode estar a referir-se aos juízes dos tribunais civis que, esses sim, equipam-se de negro da cabeça aos pés. Pois que cumpram o seu dever!

PS — Por falar em juízes, esta decisão do CJ da FPF tem um não sei quê de estertor de regime. Lembra o preito de vassalagem da célebre Brigada do Reumático ao chefe máximo da Nação uns diazinhos antes do 25 de Abril. Pois que assim seja!"
Leonor Pinhão, 25 de Março 2010 in Jornal A Bola